FOLHA DOS GANCHOS: COLUNISTA: ELI DIAS CORREA - MENINO DA GENTE
COLUNISTA : ELI DIAS CORREA
PROFESSOR, HISTORIADOR E FILÓSOFO
Menino da Gente
Na guerra do ser antigo,
brotou um menino novo.
Nasceu pequeno,
do tamanho exato do povo.
Carne como a minha,
olho atento ao redor,
coração simples, batendo
no mesmo compasso da dor.
Nasceu em Belém dizem os altares, mas nasceu mesmo de verdade, em mil lugares. Nas aldeias,
cruzou rios com a gente,
riso solto, pé no barro, sol na testa, vida quente.
Nunca gostou de berço alinhado, não cabia em pano alvo, passado.
Preferia chão batido,
rua em festa, tempo antigo,
corpo livre, mundo vivido.
À noite sentava perto do fogo, ouvia mais do que dizia. Dividia o pouco do prato, chorava o choro que doía.
Na guerra, doía-lhe ver
o homem armado de medo.
Não tardava: abraçava o perdido, desatava o nó do segredo.
Onde faltava pão, ele partia. Onde sobrava fome, permanecia. Fez presépio na rua, no banco da praça,
no beco sombrio.
Dormiu em paz com o rejeitado,
aprendeu nomes esquecidos,
não chamou ninguém de erro, nem de resto ou de desvio.
Brincou com órfãos na esquina, ralou os joelhos no chão. Esse menino é da nossa poeira,
nasce perto do chão.
Nasce na casa sem luxo,
na mesa curta, no gesto certo.
Nasce quando alguém reparte,
quando alguém fica,
quando ninguém vira o rosto.
Hoje é ele quem me refaz:
Agora sou eu seu menino,
ele, põe-me no colo,
escuta meu choro,
e à noite, em paz,
faz-me repousar
sendo ele, pai e eu seu menino.
Autor: Eli Dias Correa
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